
O cenário musical brasileiro perdeu, nesta terça-feira (13), um dos grandes ícones do axé e do pop nacional dos anos 1990. O cantor e compositor baiano Ernesto de Souza Andrade Júnior, consagrado em todo o país como Netinho, faleceu aos 60 anos em Salvador (BA). A informação foi confirmada por sua assessoria de imprensa por meio dos canais oficiais do artista.
Netinho estava hospitalizado no Hospital Aliança Star desde o dia 30 de agosto, tratando de complicações decorrentes de um linfoma não Hodgkin do tipo B bastante agressivo. A evolução do quadro oncológico resultou em falência renal e disfunção de múltiplos órgãos. Atendendo a um pedido feito em vida pelo próprio artista, o velório e a cerimônia de cremação ocorrerão de maneira restrita, reservados estritamente a familiares e amigos íntimos.
A batalha contra o câncer começou em fevereiro de 2025, quando o músico recebeu o diagnóstico inicial da doença. Após sessões de tratamento, o cantor chegou a celebrar a remissão do tumor em outubro daquele mesmo ano. No entanto, em maio de 2026, a enfermidade reapareceu, forçando uma nova interrupção em suas apresentações.
Ao longo dos últimos meses, Netinho fez questão de compartilhar os altos e baixos do tratamento com o público, mantendo uma postura de serenidade. Em nota, a equipe do músico destacou uma declaração deixada por ele durante o período de internação: "Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei. Levarei comigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a minha arte".
O artista deixa uma filha, a médica residente em Ortopedia Bruna Trindade Andrade, de 28 anos — fruto de seu casamento com a jornalista Mariana Trindade, com quem esteve casado até 2003.

Netinho com a filha, Bruna Trindade (Instagram/Reprodução)
Nascido em Santo Antônio de Jesus, no recôncavo baiano, em 12 de julho de 1966, Netinho começou na música ainda na adolescência com o violão que ganhou da mãe. Chegou a ingressar na faculdade de Engenharia Civil, mas trocou os cálculos pelas noites em barzinhos e palcos de Salvador.
Sua projeção profissional teve início em 1987 à frente do Bloco Beijo, que deu origem à célebre Banda Beijo no Carnaval de 1988. O primeiro grande estrondo da carreira veio com a faixa "Beijo na Boca", canção que colocou o grupo entre os mais tocados da folia soteropolitana e projetou sua energia para além da Bahia.
Em 1993, Netinho iniciou sua trajetória solo, emplacando faixas de impacto imediato como "Total" e "Menina", esta última incluída na novela Tropicaliente, da TV Globo — marcando o início de uma relação duradoura com as teledramaturgias brasileiras.
O ponto máximo de sua carreira ocorreu em 1996, com o lançamento do álbum "Netinho ao Vivo". O disco trouxe o hit atemporal "Milla", que se tornou um fenômeno nacional absoluto, transformando-se em um dos maiores hinos da história do axé music. A obra rendeu a Netinho o cobiçado Disco de Diamante, ultrapassando posteriormente a marca de 3 milhões de cópias comercializadas.
Nos anos seguintes, sua presença nas rádios e na TV seguiu constante: regravou "Caso Sério" e "Você é Linda" para Malhação, emplacou "Pra Te Ter Aqui" em Corpo Dourado e "Indecisão" em Andando nas Nuvens, tornando-se presença obrigatória nos principais programas dominicais e festivais do país.
Ao longo da vida pública, Netinho também enfrentou momentos de vulnerabilidade pessoal e de saúde extrema. Em 2013, o cantor enfrentou uma internação crítica após complicações causadas por hematomas hepáticos decorrentes do uso pretérito de esteroides anabolizantes. No período, sofreu três acidentes vasculares cerebrais (AVCs), passou por cirurgias cranianas e enfrentou um longo processo de reabilitação da fala e do canto, ficando quatro anos longe dos palcos até seu retorno triunfal no fim de 2017.
Pioneiro também no debate sobre sua vida pessoal no meio artístico baiano, o cantor falou abertamente ao programa Fantástico sobre sua bissexualidade, destacando na época o processo de autoaceitação e a importância da transparência para a própria felicidade.
Com uma trajetória de mais de três décadas dedicadas aos palcos, Netinho se despede deixando como marca registrada o carisma inconfundível, a vitalidade contagiante do trio elétrico e refrões que atravessaram gerações na memória afetiva do Brasil.
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