
A promessa de uma vida sem trabalho árduo e com moradia em uma fazenda fez o pedreiro Edimar Rocha Martins, de 49 anos, cruzar mais de 2.100 quilômetros entre Imperatriz, no Maranhão, e Belo Horizonte, em Minas Gerais. Ao desembarcar na capital mineira no último domingo (11), no entanto, o trabalhador se deparou com uma realidade bem diferente: a suposta companheira, identificada nas redes como “Jéssica Fazendeira”, nunca existiu — trata-se de um avatar digital gerado por inteligência artificial (IA).
Sozinho, frustrado e sem recursos financeiros sequer para garantir a própria alimentação ou estadia, Edimar teve de recorrer ao Serviço de Atendimento e Acolhimento ao Migrante da Prefeitura de Belo Horizonte para conseguir uma passagem e deixar a capital mineira.
O pedreiro relatou que as interações ocorriam por meio de plataformas como Kwai e Facebook. Em vídeos com conteúdos voltados a atrair seguidores, a imagem digitalizada da mulher fazia convites diretos aos espectadores: "eu quero que você venha para a minha fazenda e nunca mais trabalhe na sua vida", dizia uma das gravações que convenceram o trabalhador a pegar a estrada.

O apelo das mensagens encontrou terreno fértil no momento de vulnerabilidade emocional vivido por Edimar. Enlutado após a recente perda da mãe, ele via na mudança uma oportunidade de recomeçar a vida longe do isolamento.
"Às vezes, uma solidão dentro de casa acaba trazendo muito transtorno na vida da gente. Por isso que eu vim atrás dela", desabafou o maranhense em entrevista à Rádio Itatiaia.
Sem endereço para ir e sem conseguir qualquer contato após a chegada a Belo Horizonte, o trabalhador percebeu a dimensão do engano. O poder público municipal providenciou o bilhete de retorno e, na terça-feira (13), Edimar embarcou rumo a Araguatins, no Tocantins — seu município natal —, desistindo de retornar de imediato para Imperatriz.
Segundo apuração da CNN Brasil, o caso não havia sido formalizado junto à Polícia Civil até o início da semana.
Com a repercussão da história, a página responsável pelas postagens da “fazendeira” divulgou um novo conteúdo admitindo que a figura é 100% artificial, fruto de softwares de computação gráfica e algoritmos voltados à monetização e comércio online.
A pessoa que administra o perfil — que preferiu não se identificar — rebateu ter mantido trocas de mensagens individuais ou feito chamados específicos ao trabalhador. Em vídeo narrado pelo próprio avatar, a publicação alegou: "Sou feita de inteligência artificial. Nunca conversei com ninguém nesse perfil. O intuito foi ganhar engajamento para vendas".
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