
Na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) nesta terça-feira (22), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a mais importante tribuna da diplomacia global como palco estratégico para a sua campanha à reeleição. A apenas 12 dias do primeiro turno, o pronunciamento de cerca de 20 minutos equilibrou posicionamentos de política externa com acenos diretos ao eleitorado doméstico, contrapondo sua gestão à oposição liderada pelo clã Bolsonaro.
Apresentando-se perante líderes de Estado como "alguém que lutou contra uma ditadura militar, defendeu seu país contra um golpe de Estado e retirou o Brasil do Mapa da Fome", Lula articulou temas de forte apelo popular, como a gratuidade do Pix, a redução da jornada laboral, o combate a facções e a soberania sobre os recursos naturais estratégicos do país.
O conceito de soberania nacional conduziu grande parte da fala presidencial, pontuada por recados indiretos ao governo do norte-americano Donald Trump e à movimentação internacional de opositores no exterior — em especial a atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
"O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento", frisou o petista, antes de alertar que a "democracia está novamente em xeque" devido a tentativas de ingerência externa em pleitos eleitorais.
Ao abordar a transição energética e a exploração de terras raras e minerais críticos, Lula reforçou que o acesso internacional a esses bens só ocorrerá sob transferência de tecnologia e agregação de valor à indústria nacional: "Nossas riquezas pertencem ao povo brasileiro e é em benefício dele que serão exploradas".
Em resposta à recente classificação dada pelos Estados Unidos a facções como Comando Vermelho e PCC na categoria de organizações terroristas, o presidente rechaçou intervenções militarizadas e cobrou cooperação de inteligência contra as rotas internacionais de financiamento ilegal.
"Não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime", declarou, enaltecendo a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia e a recém-aprovada Lei Antifacção, com punições que superam a tipificação de terrorismo.
Mirando os trabalhadores e a classe média baixa, Lula transformou duas pautas econômicas em trincheiras de campanha. O mandatário rechaçou tentativas de alteração no modelo do sistema instantâneo de transferências: "Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix, uma infraestrutura pública e gratuita que garantiu inclusão financeira a milhões de brasileiros".
Em seguida, encampou a bandeira pelo fim da jornada 6x1, defendendo o direito de o trabalhador usufruir de dois dias de descanso semanal para formação e convívio familiar. A alteração na jornada de trabalho foi conectada à bandeira de redução da sobrecarga doméstica suportada pelas mulheres e ao fortalecimento de políticas de combate ao feminicídio.
No trecho final do discurso, Lula explicitou o tom do pleito que se aproxima em 4 de outubro, em que enfrenta nas urnas o senador Flávio Bolsonaro (PL). Ao recordar as perdas provocadas pela Covid-19 e repudiar os discursos antivacina, definiu a eleição como um divisor de águas entre a "democracia e o negacionismo".
"Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha. Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto", asseverou, concluindo sua participação na ONU com a promessa de resguardar o processo de influências indevidas: "A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho".
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