
Uma disputa milionária envolvendo a ocupação de terras no litoral fluminense ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (21). Por meio de publicações em suas redes sociais, o atacante do Tottenham e da Seleção Brasileira, Richarlison, apresentou recibos, escrituras e contratos para comprovar que pagou pelos direitos de ocupação de uma propriedade situada na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ). O atleta questiona publicamente os critérios e a celeridade com que a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) reconheceu a titularidade da área em favor da WT Administração de Imóveis, empresa ligada ao advogado Willer Tomaz — amigo próximo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República.
No relato em vídeo, o jogador declarou ter aportado cerca de R$ 10 milhões no local entre 2020 e 2021, em tratativas conjuntas com o ex-deputado Alencar da Silveira Júnior. O montante abrangeria R$ 4,66 milhões pagos a ocupantes anteriores, indenizações a antigos moradores, obras estruturais e investimentos contínuos em segurança patrimonial. Segundo Richarlison, a Justiça do Rio de Janeiro havia validado sua posse à época, mas seu pedido de regularização tramitou sem desfecho por quase um ano na SPU, enquanto o grupo concorrente obteve aval com rapidez incomum.
O atleta também rebateu alegações de oportunismo político devido ao calendário eleitoral. Richarlison divulgou ter procurado Flávio Bolsonaro em abril para mediar a controvérsia, sem que houvesse retorno. Conforme o jogador, antes da consolidação do litígio, o grupo formado por Tomaz e pelo senador teria feito investidas financeiras para adquirir o terreno, oferta recusada por ele. Além da restituição do espaço, o atacante agora cobra indenização e a reconstrução da residência principal, que teria sido demolida após a troca de posse.

Por se tratar de área da União, a controvérsia não versa sobre propriedade privada, mas sim sobre os direitos de cessão e ocupação autorizados pelo poder público federal. A contenda jurídica começou em 2020. Em 2022, uma empresa representada por advogado associado a Willer Tomaz conseguiu liminar de reintegração de posse. A ação original acabou extinta sem resolução de mérito em outubro de 2025, decorrente da renúncia de uma das partes, e foi formalmente arquivada em janeiro de 2026.
As suspeitas sobre o caso chegaram ao Ministério Público Federal (MPF) neste mês, a partir de representação protocolada pelo coletivo Derrubando Muros. A entidade solicita que os procuradores investiguem suposto favorecimento indevido e a velocidade de tramitação dos atos administrativos que outorgaram o imóvel à firma de Tomaz. O protocolo do pedido visa instaurar apuração oficial e não representa condenação judicial.
O advogado Willer Tomaz afirma que todo o trâmite de aquisição dos direitos seguiu estritamente a legislação e que desembolsou R$ 5 milhões para liquidar débitos fiscais atrelados à área. Em paralelo, o jurista é investigado pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto — deflagrada em agosto para apurar fraudes no INSS —, procedimento no qual igualmente rechaça irregularidades. Procurada para comentar as recentes manifestações de Richarlison, sua defesa não respondeu até o fechamento desta edição, permanecendo o espaço aberto para manifestação.

A assessoria do senador Flávio Bolsonaro reiterou que o parlamentar mantém laços pessoais de amizade com Willer Tomaz, mas negou qualquer ingerência ou participação societária no imóvel da Costa Verde. Em nota anterior, a equipe do congressista classificou qualquer tentativa de vinculação ao caso como "factualmente infundada e eleitoralmente motivada".
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