
Um esquema sofisticado montado dentro de agências bancárias para desviar recursos de clientes mortos foi desarticulado nesta quarta-feira (28) pela Delegacia de Combate à Corrupção (Deccor). A investida, denominada Operação Desfalque, investiga dois ex-gerentes do Banco do Brasil e a companheira de um deles por causarem um rombo estimado em R$ 4.420.298,86.
O grupo teria movimentado ilegalmente cerca de 63 contas correntes inativas vinculadas a beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a maioria delas já falecida ou com quantias travadas em inventários judiciais.
Segundo a delegada Bernadete Santana, titular da apuração, os ex-funcionários se aproveitavam de suas credenciais de gestão para rastrear contas com altos saldos estagnados há longos períodos. Sem levantar suspeitas de terceiros ou depender de intermediários, eles executavam as fraudes de dentro do próprio sistema:
Manipulação cadastral: Os suspeitos acessavam os registros internos, alteravam senhas originais e solicitavam novas vias de cartões bancários em nome dos titulares.
Saques em caixas de autoatendimento: Com os cartões em mãos, realizavam retiradas presenciais diretamente em terminais eletrônicos espalhados pelo Piauí, ainda que as contas pertencessem a clientes de diversos estados brasileiros.
Drenagem a conta-gotas: Para driblar alertas automáticos de movimentações atípicas, os valores eram subtraídos gradualmente — entre R$ 2 mil e R$ 3 mil por dia. Em apenas uma das contas auditadas, foram sacados cerca de R$ 100 mil ao longo de semanas.
Imagens captadas por circuitos de segurança registraram os suspeitos sacando o dinheiro nos terminais. O esquema começou em janeiro de 2023 e perdurou até 2025, quando uma auditoria interna do próprio Banco do Brasil identificou as irregularidades e apresentou a notícia-crime à polícia. Como detentor e custodiante legal dos recursos, o banco figura como vítima direta da infração.

A quebra de sigilo bancário expedida pela Justiça revelou que a esposa de um dos ex-gerentes participava diretamente da rotina de saques junto com o marido.
Ambos os ex-gerentes atuavam na capital piauiense e já haviam sido demitidos por justa causa pela instituição financeira — um deles, que exercia o cargo de gerente de pessoa física, foi desligado em julho de 2025 e se mudou para Goiás.
Ao todo, a Deccor executou três mandados de busca e apreensão em endereços residenciais de Teresina e Goiânia. Durante as diligências na capital do Piauí, os agentes recolheram:
Cerca de 38 cartões magnéticos de contas de terceiros;
Telefones celulares e computadores portáteis;
Automóveis dos alvos.
A Justiça acolheu o pedido dos investigadores e decretou o bloqueio judicial de contas bancárias e ativos dos três envolvidos para resguardar futuro ressarcimento aos cofres da instituição lesada.

Não foram expedidas ordens de prisão temporária ou preventiva nesta fase, já que os ex-gerentes não possuem mais vínculo empregatício com o banco e não têm acesso à rede corporativa.
Os investigados respondem pelos crimes de peculato e lavagem de capitais. O foco das equipes agora recai sobre a perícia digital dos aparelhos apreendidos, na tentativa de esclarecer se os dois ex-gerentes agiam em coautoria coordenada e se existem outros servidores ou pessoas físicas integrando o esquema criminoso.
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