
A combinação entre paisagens agrestes, preservação ambiental e noites de escuridão profunda tem colocado o interior do Piauí na rota de um nicho turístico em franca expansão: o astroturismo. A modalidade, que une a apreciação a olho nu de corpos celestes à prática da astrofotografia — técnica voltada a registrar detalhes do cosmos —, desponta como alternativa aos roteiros convencionais, atraindo viajantes interessados na observação de constelações, planetas e do próprio centro da Via Láctea.
Entre os principais cenários para a atividade está o Cânion do Rio Poti, encravado no município de Buriti dos Montes, a cerca de 240 quilômetros de Teresina. Distante de grandes centros urbanos, a região destaca-se pela escassez quase absoluta de poluição luminosa aliada a um clima seco e estável durante a maior parte do ano, fatores que garantem nitidez excepcional na contemplação da abóbada celeste.
De acordo com o fotógrafo de natureza e guia turístico Eduardo Figueiredo — idealizador da agência Turismo Outdoor —, o calendário de expedições é pautado diretamente pelo regime pluviométrico. Os meses de outubro, novembro e dezembro configuram a melhor época para a contemplação astronômica no estado, período em que a probabilidade de chuvas é mínima e o céu permanece limpo por longos períodos noturnos. Por outro lado, o intervalo que vai de janeiro a abril, historicamente mais chuvoso, impõe limitações devido à frequente cobertura de nuvens.
Nas noites propícias e com a fase lunar adequada, formações estelares de alta densidade podem ser identificadas sem a necessidade de telescópios.
“Se você sair um pouco de Teresina e for para a Serra da Capivara, Cânion do Poti ou para o litoral, consegue ver a olho nu o centro da Via Láctea. É o nosso ‘Atacama da Caatinga’”, define o profissional, que compara o potencial piauiense ao famoso deserto chileno e classifica a região como detentora de um dos céus mais estrelados do planeta graças à aridez e ao isolamento luminoso.
A consolidação dessas rotas noturnas teve início há cerca de 15 anos, quando Figueiredo começou a desbravar recantos naturais piauienses — como a Serra de Santo Antônio, próxima à capital, além do próprio Cânion do Poti e do Parque Nacional da Serra da Capivara. O registro fotográfico dessas expedições gerou interesse crescente e culminou na criação da agência, cuja procura se intensificou fortemente no período pós-pandemia, impulsionada pela busca por vivências ao ar livre e contato imersivo com a natureza.
O avanço desse segmento soma-se à robusta malha de atrativos turísticos do Piauí, que reúne desde o litoral até quatro parques nacionais — com ênfase no Parque Nacional de Sete Cidades e na Serra da Capivara, chancelada pela Unesco como Patrimônio Mundial devido ao seu acervo arqueológico de pinturas rupestres.
Segundo agentes do setor, intervenções de infraestrutura nas rodovias e melhorias no suporte logístico têm facilitado o acesso a esses polos remotos, estimulando a própria população do estado a redescobrir suas riquezas naturais e integrando entretenimento, conscientização ambiental e difusão científica.
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